Alucinação e a genialidade de Belchior

O disco logo de cara já chega mandando uma mensagem boa: a de que Belchior vinha com tudo e com uma vontade de crescer ainda mais.

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Alucinação é o segundo disco de estúdio do mestre Belchior. Veio ao mundo em 1976 pelo selo Polygram, recheado de clássicos que até hoje são cantarolados, seja nas rodas de violão ou nos grandes shows; sempre há espaço para essas canções.

Indo direto ao que realmente importa, a primeira música do disco já é um chute na porta. Apenas um rapaz latino-americano é considerado por muitos a melhor música do disco, o que deixa muitas pessoas divididas, porém não nos resta dúvidas de que essa música é um clássico. Ela vem seguida por nada menos que Velha roupa colorida, uma das músicas mais significativas para este que vos escreve. Nessa faixa, Belchior faz algo que fez eu me apaixonar:

“Como Poe, poeta louco americano eu pergunto ao passarinho: Blackbird, Assum-preto, o que se faz?”

Além de citar Edgar Allan Poe, ele ainda compara o Blackbird dos Beatles com o Assum-preto  de Luiz Gonzaga. Essa canção que também foi regravada por Elis Regina nos dá uma deixa para falar da próxima música do disco, Como nossos pais. E essa é aquela canção que não precisamos falar muito, ela fala por si própria.  Seja na versão da Elis ou do Belchior, é uma ótima composição a ser apreciada.

Sujeito de sorte e Como o diabo gosta são aquelas duas que vem com gosto de qualidade. Sujeito de sorte fala sobre a juventude, sobre como ele, apesar de moço, se sentia são e salvo e acreditava que um Deus o protegia. Já Como o diabo gosta vem em tom de protesto, que é o charme da composição:

“O que transforma o velho no novo
bendito fruto do povo será.
E a única forma que pode ser norma
é nenhuma regra ter;
é nunca fazer nada que o mestre mandar.
Sempre desobedecer.
Nunca reverenciar.”

Alucinação traz o bom e velho discurso “eu não estou interessado em nenhuma teoria”, que mostra o porquê da escolha dessa canção para faixa-título do disco. Canção essa que se popularizou tanto que foi regravada por várias bandas do cenário nacional. A banda Engenheiros do Hawaii, no seu disco Minuano (BMG Brasil, 1997), fez uma versão muito digna para homenagear o compositor.

Não leve flores traz na letra um desabafo de cantor; uma música que fala de amigos e de esperança:

“Palavra e som são meus caminhos pra ser livre,
e eu sigo, sim.
Faço o destino com o suor de minha mão.
Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa
e não deixei meu cigarro se apagar pela tristeza.
– Sempre é dia de ironia no meu coração.”

Chegamos então às chaves de ouro do disco: À Palo Seco (a qual foi gravada pelos Los Hermanos, no álbum Luau MTV (BMG Brasil, 2002), e, ainda, tocada ao vivo junto com o próprio Belchior) e Fotografia 3X4. O que falar sobre essas canções? Considero À Palo Seco a música mais importante desse disco, pelo nível de poesia e de desabafo do compositor. Desabafo por desabafo, Fotografia 3X4 nos fala:

“Em cada esquina que eu passava
um guarda me parava, pedia os meus documentos e depois
sorria, examinando o três-por-quatro da fotografia
e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha.
Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade,
disso Newton já sabia! Cai no sul grande cidade
São Paulo violento, Corre o rio que me engana…
Copacabana, zona norte
e os cabarés da Lapa onde eu morei
Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar
que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar,
mas a mulher, a mulher que eu amei
não pôde me seguir, oh não
esses casos de família e de dinheiro eu nunca entendi bem
Veloso o sol não é tão bonito pra quem vem
do norte e vai viver na rua
A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
e pela dor eu descobri o poder da alegria
e a certeza de que tenho coisas novas
coisas novas pra dizer”

Uma baita composição e sem dúvidas uma música linda que fala das situações que Belchior viveu em São Paulo. Por último, a canção mais curta e que encerra o disco Antes do fim.  A letra eu deixo como mensagem de encerramento dessa matéria, que se alongou um pouco, mas creio que vale a pena falar com cuidado e carinho das canções de Belchior. Deixo a dica pra todos, Alucinação: disco de 1976 composto por Belchior e produzido por Marco Mazzola. Pode ser ouvido no YouTube, clicando nesse link aqui:

Valeu pessoal, até a próxima… Me despeço com a letra de Antes do fim do nosso querido Belchior:

“Quero desejar, antes do fim,
pra mim e os meus amigos,
muito amor e tudo mais;
que fiquem sempre jovens
e tenham as mãos limpas
e aprendam o delírio com coisas reais.

Não tome cuidado.
Não tome cuidado comigo:
o canto foi aprovado
e Deus é seu amigo.
Não tome cuidado.
Não tome cuidado comigo,
que eu não sou perigoso:
– Viver é que é o grande perigo”

– #voltabelchior!

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2 thoughts on “Alucinação e a genialidade de Belchior

  1. Ainda que eu ame as letras/poesias do Belchior, as melodias me irritam um pouco por serem todas muito parecidas, pouco criativas. Acho o arranjo de Velha Roupa Colorida usado pela Elis miiiilll vezes melhor que o do próprio Belchior.

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    1. Concordo contigo em partes. O Alucinação, sim, parece monomelódico, simplista demais em termos de arranjos. No entanto, esse disco é um marco, obviamente não por referência de experimentalismo haha O arranjo de Velha roupa colorida da versão da Elis, no disco Falso Brilhante, é realmente uma ótima releitura, mas muda um pouco a característica e a ambientação da canção.

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