O que vale mais: comprar LPs usados ou novos?

“O que vale mais?”, já indagava Seu Madruga. Bom, o título traz uma pergunta bem difícil de responder. E não é pra menos. O que eu vou tentar estabelecer aqui são alguns pontos que ajudam a esclarecer um pouco a discussão, tentando ajudar, principalmente, aqueles que estão começando a se aventurar na coleção de discos. Mas já adianto: a coisa é bem pessoal. Vou dividindo em tópicos para organizar melhor.

1. A carga emocional

Primeiro, é importante estabelecer objetivos. Quando comecei a colecionar, gostava bastante da ideia do disco usado. Da mesma forma que eu gosto do livro usado, comprado em sebo. O principal motivo para essa predileção se configura pelo fato de que o objeto antigo e usado carrega uma carga emocional de histórias muito grande. Onde foi comprado? Quem era seu dono? Qual seria a relação do dono com o objeto? Enfim, uma gama de questionamentos que aguçam a nossa imaginação. Sem contar que, algumas vezes, somos presenteados com alguma coisinha esquecida, uma foto, uma carta, um cartão postal, etc, que colaboram para a construção do imaginário desse objeto.

A última coisa que encontrei em um disco foi um programa de uma apresentação do Quinteto Violado, em Porto Alegre, com assinatura do dono e data de 05/10/79. O programa estava guardado dentro de um álbum do mesmo grupo chamado …Até a Amazônia (1978). O legal, além disso, foi que comprei o disco por R$10 em uma lojinha aqui no centro de Poa. O disco novo lacrado te rouba um pouco essa experiência, mas traz outros aspectos positivos, como veremos adiante.

2. A qualidade

Esse é um tópico extremamente controverso. É importante destacar desde já que existem prensagens e prensagens. Desde a qualidade indiscutível das prensagens japonesas, artigo de luxo para colecionadores, até prensagens nacionais feitas a partir de CDs, o que resulta num resultado muito limitado de potência sonora. Comprar um disco “de época” não é garantia de que é uma prensagem boa. Claro que, para muitas pessoas, isso nem faz diferença. No entanto, quem compra vinil, geralmente, é um público mais exigente, que quer uma experiência completa, tanto em termos visuais quanto sonoros. Além disso, se for uma primeira prensagem, qualidade garantida.

Apesar desses fatores, a qualidade de um disco decorre de um conjunto de fatores. Dentre eles, estão o armazenamento e o cuidado com o álbum. Uma capa rasgada, riscada ou amassada e um disco arranhado, empenado ou trincado impactam (e muito) no valor final de um disco (ou pelo menos deveriam). Isso é preocupação de quem compra usado, claro. Quem compra disco novo, tem a garantia de ter um disco 100% (desde que haja um transporte adequado). Outra coisa legal é a experiência de abrir um disco pela primeira vez. Saber que, da fábrica até sua casa, existiram fatores que te permitiram ser a primeira pessoa a escutar aquele som. Assim como a experiência do disco usado, tem algo mágico nesse processo.

3. A raridade

Esse é um ponto bem curto e bem óbvio. Para se levar em conta a raridade na hora de comprar seus discos, é preciso ter em mente que tipo de colecionador você é. Você pode apenas querer um título na sua coleção, não se importando com prensagem, ou você pode querer as primeiras prensagens de um determinado artista. Se você optar pela segunda, já adianto, vai desembolsar uma boa grana. A Polysom, de uns tempos pra cá, vem se preocupando em relançar alguns discos que são cultuadíssimos por colecionadores. Então chegamos em um dilema. Temos, por exemplo, o LP Os Mutantes (1968) usado, de época, por valores de R$200 até R$650 (a primeira é um relançamento e a mais cara é a original) no Mercado Livre, e o mesmo disco na Polysom, por R$89,90. 

Os Mutantes à venda no Mercado Livre

Os Mutantes na loja da Polysom

Tem gente que jura de pé junto que a qualidade do disco da Polysom é tão boa quanto o original. Eu nunca escutei, então não posso opinar. Enfim, essa escolha fica a critério do colecionador.
4. O preço

Eu acompanho o mercado de vinil há pouco tempo, então não sou exatamente um expert no assunto. Existem fóruns especializados sobre o assunto (como o HTForum, por exemplo), nos quais a maioria dos membros tem anos e anos de experiência. No entanto, eu acredito que toda discussão nesse âmbito é válida, desde que não seja desinformação. Tenho acompanhado a “cena” de vinil usado aqui de Porto Alegre há uns 5 anos. E, desde 2013 pra cá, os preços, inegavelmente, dispararam. Além disso, alguns discos simplesmente desapareceram das prateleiras. Led Zepellin, Beatles, Ramones, Nirvana são diferenciais nas banquinhas. Com muita procura e pouca oferta, os preços enlouquecem, realmente. Já achei o primeiro disco dos Ramones, prensagem nacional, por R$350 (!). Acho que justamente isso está causando um certo esfriamento nesse mercado. Não sei se a moda está passando ou o que seja, mas é a impressão que me fica.

Eu já prefiro garimpar do que gastar um dinheirão em usado. Claro que achar um Nirvana por preço de brique é “mosca branca”, quase impossível. Quase. A maioria dos discos da minha coleção comprei por módicos R$5 ou R$10, então, tenham paciência e saibam procurar. Há algum tempo atrás, eu era fissurado na OLX, procurava discos por lá várias vezes ao dia. E consegui comprar bastante coisa boa, nessa faixa de preço (inclusive vou fazer um post mais pra frente sobre o que eu já comprei na OLX, dando dicas de como procurar).

Com relação à importação, temos um assunto complicado, que vamos discutir em outro post. Mas o que podemos adiantar é que, muitas vezes, um disco novo lá fora custa 1/4 do preço de um usado aqui no Brasil. Então, pagando frete e uma possível tributação, ainda sai mais barato do que comprar um usado. Por outro lado, em Porto Alegre, temos lojas que vendem discos novos importados e que praticam preços muito justos. Uma delas é a Music Matters, que já foi matéria de um outro post. Já comprei discos lá e recomendo. Os preços são bons, o catálogo é incrível e as condições de pagamento são bem variadas. Vale a pena dar uma olhada no site. Lembrando que na loja física o preço é menor. Outra coisa é ficar ligado nas promoções de lojas. Em abril, tivemos o Mês do Vinil. Várias lojas deram descontões e acabei comprando bastante coisa na Polysom (que volta e meia tá com promoções bem legais também).

Bueno, pra começo de conversa, acho que era isso. Vamos discutir mais sobre esses aspectos, a partir de coisas que eu venho experienciando aqui em Porto Alegre, sempre tentando iluminar um pouco as coisas para quem quer começar e não sabe bem por onde e não quer gastar um dinheirão. Muita gente fala que quem quer comprar vinil, tem que ter dinheiro pra bancar. Eu já acho esse discurso muito elitista. Minha coleção, embora tenha hoje um valor bem alto, teve um investimento relativamente baixo. A música é para todos. O vinil também pode ser!

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